Entrevista com o escritor sírio Robin Yassin-Kassab.

A guerra na Síria está se tornando o túmulo de toda uma geração revolucionária que se levantou desde janeiro de 2011. São atualmente mais de 12 Estados estrangeiros que bombardeiam o país, em plena guerra civil. A superposição dos interesses de tal ou qual país, de tal ou qual grupo, parece ter impedido qualquer leitura clara da Revolução Síria.

Entre as intrigas diplomáticas, que ocupam as capas dos jornais, e as leituras confusas e conspiracionistas que florescem da extrema direita à extrema esquerda, o movimento popular de emancipação que tomou as ruas em 2011, na continuidade da Primavera Árabe, foi totalmente esquecido e silenciado, condenado ao isolamento total.

Um dos episódios mais violentos e decisivos da guerra civil Síria ocorreu há pouco tempo dentro de uma única cidade, em Alepo, onde um bastião estratégico da Revolução Síria acabou de ser massacrado – junto com grande parte da cidade –  pelo Regime autoritário de Bachar El Assad. Dos primeiros levantes em Deraa, no sul do país, às ruínas de Alepo as cidades formaram um cenário decisivo durante a guerra Síria.

Nas últimas semanas, os bairros da zona leste de Alepo, símbolos da insurreição, libertados do regime de Assad há mais de 4 anos e auto-organizados pelas diferentes tendências da rebelião, foram retomados pelo regime. Isto aconteceu depois de diversas discussões e negociações entre os Estados membros do conselho de segurança da ONU, que acabaram aceitando o roteiro do abandono total de Alepo, deixando o destino da cidade à mercê de Bachar El Assad e seus aliados russos e iranianos, à mercê dos bombardeios e das armas químicas. Talvez seja tarde demais para “salvar” a Revolução Síria, mas o que começou em 2011 e em tantos lugares ao redor do Mediterrâneo semeou sementes que demorarão anos para amadurecer, debaixo do gelo. É necessário tanto para os Sírios como para os não Sírios entender o que de fato aconteceu para tirar os ensinamentos necessários.

Diante da escassez de informação e discussão sobre o assunto, traduzimos a entrevista do escritor Robin Yasin-Kasab realizada pela revista francesa Lundi Matin de forma a contribuir para o diálogo neste trabalho indispensável de compreensão.

Robin Yassin Kassab é escritor e jornalista sírio-inglês, nascido em Londres em 1969. Ele escreveu conjuntamente com Leila Al-Shami “Burning country: Syrians in Revolution and war”, publicado em 2016.

LM: O seu livro “Burning country” se concentra na natureza específica da revolução síria e a energia extraordinária que foi liberada a partir dela. Muitos aspectos esclarecidos no seu livro são bastante desconhecidos fora da Síria (fora alguns trabalhos universitários) ou foram esquecidos diante da retórica onipresente da “guerra contra o terrorismo”.  Ao ler o livro, ficamos impressionados com a aparente maturidade da insurreição revolucionária síria, antes da militarização total do conflito e das formas inéditas que esta teve em muitos locais. Você poderia nos dar alguns elementos, para os leitores de fora, sobre o que ainda pode ser salvo da revolução Síria e sobre a maneira como ela evolui?

Robin Yassin-Kassab : Ainda existem cerca de 400 conselhos locais e regionais que organizam a vida cotidiana debaixo das bombas nas zonas libertadas. Em torno da metade são eleitos diretamente, e a outra metade tem formas semi democráticas, praticando a democracia interna ou o consenso comunitário. Há sindicatos independentes, centros de mulheres, projetos comunitários de saúde ou de educação, mais de sessenta jornais e dezenas de estações de rádio independentes. Existe uma cultura de questionamento e de debate, uma verdadeira fertilidade cultural. E é exatamente isso que está sendo visado, tanto pelos bombardeios de Assad e da Rússia, que pelas dezenas de milhares de milicianos apoiados e armados pelo Irã, pelo Estado Islâmico e, algumas vezes, pelo Jabbat al-Nusra (ramificação sírio da Al Qaïda) .

Fonte: IHS News.

LM: Em seu livro você cita uma pessoa que se chama Omar Aziz, fazendo um paralelo direto entre a Comuna de Paris e a primeira fase da revolução síria, você poderia nos dizer quem ele era e como ele influenciou especificamente o espírito da revolução síria?

RYK : Omar Aziz era um anarquista sírio. Ele escreveu um documento, no oitavo mês da revolução, no qual ele defendia que manifestar não era mais suficiente, e que o povo revolucionário deveria começar a estabelecer suas próprias estruturas populares, que pudessem substituir as do Estado opressor. Mais exatamente, ele sugeria a formação de conselhos populares para permitir às comunidades de gerenciar suas necessidades, e desta forma, começar uma revolução social. Ele esperava que tais conselhos pudessem começar a existir, desde já, na escala regional ou até mesmo nacional.

Omar participou da criação dos três primeiros conselhos locais, em Zabadani, Barzeh e Dataya. Ele foi em seguida preso pelo regime e morreu na cadeia, na véspera do seu aniversário de 64 anos. Centenas de conselhos locais e regionais foram criados depois da sua morte.

 

LM: A maioria dos militantes de esquerda ou revolucionários fora do Oriente médio ouviram falar e apoiam de modo mais ou menos ativo a experimentação social desenvolvida pelo PYD-PKK (partidos-guerrilhas, em sua maioria curda) no Rojava (região no norte da Síria). Sem entrar nos detalhes dos diversos pontos de discordância que opõem os grupos da revolução síria e o PYD (ramificação síria do PKK), você acha que a esquerda radical e os movimentos sociais de fora deveriam ter apoiado de forma mais clara os revolucionários no resto da Síria?

RYK : Um número muito grande de realizações positivas ocorreram em Rojava – especificamente no que diz respeito aos direitos das mulheres e a participação das mesmas na vida política, ou ainda com a criação de conselhos comunitários (ou de comunas). No entanto, o PYD continua sendo um partido-milícia autoritário, que em algumas ocasiões serviu ao regime do Assad e teve, em diversos momentos, um papel contra-revolucionário. Em alguns casos, ele ocupou zonas, em sua maioria árabes, com o apoio dos bombardeios russos e expulsou conselhos democraticamente eleitos. Eu gostaria que a esquerda e os revolucionários fora da Síria expressassem uma solidariedade crítica ao Rojava – apoiando suas grandes realizações mas criticando também os seus erros. Eu também gostaria que eles procurassem saber mais sobre os conselhos fora do Rojava, sobre os conselhos que não funcionam sob a proteção de um partido único, e que eles expressassem uma solidariedade crítica a estes igualmente.

Fonte: Lundi Matin.

LM : Diversas vozes vindo da esquerda analisam a situação através das lentes enferrujadas da guerra fria e persistem em análises geopolíticas (às vezes até conspiracionistas) que se recusam em ouvir o que dizem e fazem realmente as pessoas que tomaram as ruas, pondo em risco suas vidas, por uma vida melhor. Você diria que as “primaveras árabes” abriram um novo espaço político transnacional dando as costas para a velha esquerda, espaço do qual precisamos ainda tomar pé? Ou, perguntando de outra forma, o que nos ensinam as ruas árabes desde 2011?

RYK : Em vez de estabelecer solidariedades com os setores democráticos, de esquerda ou operários do movimento revolucionário na Síria, a suposta “esquerda”, na Europa, se   refugiou em    considerações geopolíticas rasas, teorias conspiracionistas e outros mitos  orientalistas. Eles chegaram a imaginar, contra todas as evidências, que se tratava de uma   nova manobra dos Estados Unidos para tentar derrubar um regime. E inclusive ignoraram        totalmente a verdadeira operação     imperialista desenvolvida na Síria     pela Rússia      e          pelo Irã.

Depois adotaram esse mito islamofóbico, segundo o qual a revolução síria teria sido produzida por “Al Qaida”, para em seguida poder repetir a retórica da “guerra contra o terrorismo”, que antes se ouvia somente na esfera da direita. Eu culpo as personalidades, comentadores e revistas de esquerda mais do que as pessoas comuns que constrõem as suas opiniões a partir destas fontes. Como estes analistas podem ter se enganado a este ponto? Em parte pelo fato da sua profunda ignorância em relação à Síria e ao Oriente Médio mas, o que é ainda mais grave, é que este erro aponta os erros maiores que paralisam “a esquerda” no mundo inteiro e abrem caminho para as extremas direitas. Dentro deste erros, podemos citar esta tendência em apoiar estados autoritários, a condição de que estes sejam percebidos como “anti-imperialistas”, a derrota repetida em não tentar entender as vozes que vêm do povo, assim como uma falência intelectual que dá espaço a todas as teorias conspiracionistas e os discursos propagandistas.

As contra-revoluções estão vencendo, mas se fizermos o esforço de prestar atenção, as   revoluções no mundo árabe têm lições para nos ensinar sobre as formas de organização e   resiliência dentro de um processo revolucionário. Poderíamos também aprender algo das         próprias contra-revoluções, a condição de analisá-las corretamente. Como os poderes     instituídos procuram dividir os opositores para continuar com as cartas na mão e esconder   seus próprios crimes? Como estados – inclusive estados que parecem opostos uns aos outros      – se aliam perfeitamente para esmagar sonhos de liberdade? Em muitos aspectos, a revolução síria é a revolução social mais profunda que ocorreu desde a Espanha dos anos   1930. E a “esquerda” não quis olhar pra ela.

LM : Enquanto estamos conversando, Assad, Putin, e seus aliados tentam acabar definitivamente com a rebelião em Alepo, através de um gigantesco massacre. A eleição de Trump nos Estados Unidos é provavelmente um outro passo para enterrar qualquer esperança de mudança imediata para o povo Sírio. Muitos Sírios estão hoje na Europa e se perguntam como prosseguir, no exílio, o que foi começado na Síria. Entender o que aconteceu é uma necessidade tanto para os Sírios como para qualquer pessoa que espera e age em prol de uma mudança radical. O que pode ser feito para salvar o que ainda resta da revolução Síria?

RYK: Independente dos acontecimentos, é fundamental corrigir a narrativa que foi feita sobre a Síria e entender o que de fato aconteceu. É realmente deprimente ver tão poucas pessoas se manifestarem contra os crimes da Rússia, ainda mais quando os efeitos desses crimes afetam diretamente o resto do mundo. Enquanto Assad permanecer no poder, milhões de refugiados não terão condições de retornar às suas casas, e o jihadismo continuará a proliferar. Deveríamos protestar e pressionar nossos governos para impor sanções econômicas à Rússia e ao Irã. A Rússia poderia, por exemplo, ser excluída do sistema internacional de pagamento. A vitória do fascismo na Síria faz parte de uma ofensiva interconectada da extrema-direita que afeta as Américas, a Europa, assim como o Oriente Médio. Nossos destinos estão interligados.

Crédito: Ammar Abdullah / Reuters.

Esta entrevista foi originalmente publicada na revista francesa Lundi Matin. O texto original pode ser acessado aqui.

Foto da capa: Lundi Matin.