Sobre

                             

 “A História é a Geografia no Tempo,
a Geografia é a História no Espaço”

Élisée Reclus,
Geógrafo e integrante da Comuna de Paris

Desde o século XIX, uma ciência do espaço foi remanejando, incessantemente, as paisagens urbanas e os territórios para racionalizá-los, de acordo com as necessidades econômicas. O urbanismo surgiu no início de sua história como um discurso de verdade que, para modelar e uniformizar o espaço, tentou sistematicamente higienizá-lo, eliminando os elementos considerados indesejáveis – ora rejeitando as populações mais pobres fora dos centros, ora reduzindo ao silêncio outras formas de habitar a cidade e seus bairros. A partir deste processo, inerentemente associado à industrialização, se formaram as malhas urbanas que vieram estruturar a produção capitalista em diversos países, inclusive no Brasil pós-colonial.

No entanto, outras formas de vida não pararam de emergir, entre as linhas do desenho planejado, reocupando os espaços vazios logo após cada reintegração de posse. Desde essa época, a cidade tem sido palco de conflitos e lutas que tem por objeto diversas formas de ocupar o espaço e se relacionar com o território. Por trás do espectro de projeções que caracterizou a formação urbana e a modernização do território no ocidente, uma miríade de ações coletivas e individuais formou um contra-projeto àquele ditado pelo Estado.

Os historiadores pouco se interessaram por essas questões deixando, na sua maioria, o estudo do espaço urbano para outras disciplinas. Essa história espacial do político, do conflito social e econômico que modela não somente a cidade, mas o território como um todo, resta ainda, em muitos aspectos, a ser explorada.

Esta exploração passa por uma necessária articulação entre a História e a Geografia, disciplinas por vezes confinada a um papel meramente teórico ou escolar, mas que consideramos urgente retomar como ferramentas de trabalho coletivo que possuem não somente a capacidade de decriptarem o social, mas sobretudo de agir sobre ele.

Em outros termos, Cartografia Noturna é um espaço inter-disciplinar, que visa fomentar a reapropriação e encontros de saberes diversos, onde a sabedoria prática que percorre as ruas possa dialogar com saberes teóricos que não costumam ultrapassar os muros da universidade.

Trata-se de um espaço aberto que reúne reflexões e textos com o intuito de tentar traçar, de forma coletiva, algumas linhas da história desta dimensão política do espaço e assim mapear esta outra territorialidade que, silenciada, foi sistematicamente rejeitada nos cantos de sombra do mapa.

A ideia de “Cartografia” é entendida aqui para além do seu sentido usual, como um mapeamento que visa problematizar, no domínio da escrita e da arte, diversas estratégias e experiências de resistência urbanas e territoriais. O projeto aspira servir de câmara de eco para os territórios insurgentes – urbanos ou não – que se materializaram tanto no passado como no presente, delineando assim mapas imaginários que abrem caminhos para outros porvires.

Cartografia Noturna

Contato: contato[a]cartografianoturna.com

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