Nos meses de julho e agosto deste ano, na cidade litorânea de Al-Hoceima, no norte do Marrocos, as autoridades tentavam fazer de tudo para criar um clima de normalidade que possa atrair os turistas. No circuito estival do litoral, nada deveria transparecer o clima de revolta popular que, ao longo dos meses anteriores, se fazia ouvir naquela região.

Com efeito, há um ano, um movimento de contestação popular despertou na região do Rif, no norte do Marrocos. O movimento começou em outubro de 2016 após a morte de Mouhcine Fikri, pequeno comerciante que morreu esmagado dentro de um caminhão de lixo ao tentar salvar suas mercadorias que estavam sendo confiscadas e destruídas pela polícia marroquina, na cidade de Al-Hoceima. Mouhcine havia sido repreendido por vender peixes que, segundo a polícia, teriam sido pescados ilegalmente. Logo após o ocorrido, multidões tomaram as ruas para pedir justiça e denunciar a violência da polícia e do Regime, não somente em Al-Hoceima mas também em outras cidades da região. A principal reivindicação do movimento era então a punição e a prisão dos policiais responsáveis.

A população da região do Rif é de origem berbere ou Amazigh, população indígena que habitava a região antes da chegada dos árabes e do Islã na África do Norte que ocorreu a partir do século VII. Os Berberes se auto-denominam Imazighen, o que significa “homens livres” na língua Amazigh. As regiões de povoação berbere, que correspondem principalmente às áreas montanhosas do interior e do norte do Marrocos, são atualmente as regiões mais pobres do país e, por serem economicamente marginalizadas, sobrevivem em grande parte graças ao comércio informal.

Protesto em Al Hoceima. Créditos: Fadel Senna/AFP.

A morte de Mouhcine foi apenas a gota d’água que revelou a violência recorrente do regime contra os jovens e vendedores ambulantes e reforçou a indignação e o sentimento de injustiça nas populações da região do Rif. Durante os seis meses que se seguiram aos primeiros protestos, houveram manifestações de rua quase todas as semanas. No dia 26 de maio de 2017, uma das lideranças do movimento, Nasser Zefzafi, de 39 anos, recebeu ordem de prisão após ter tomado a palavra em uma mesquita de Al Hoceima e respondido ao imame – responsável religioso no culto muçulmano -, que criticava as possíveis derivas desordeiras do movimento. O fato de uma liderança de um movimento contestatório tomar a palavra dentro de uma mesquita e responder ao discurso do imame foi considerado como uma afronta grave pelas autoridades, prova do forte controle exercido pelo Estado marroquino sobre a esfera religiosa. Após ter conseguido fugir da polícia durante alguns dias, Nasser Zefzafi foi finalmente preso no final do mês de maio. Posteriormente, muitos outros jovens que participavam do movimento também foram presos, somando até o dia de hoje centenas de detenções.

Logo após a prisão de Zefzafi e de outros ativistas, o movimento e os confrontos entre manifestantes e autoridades marroquinas se intensificaram. Ao longo do mês de junho, Al-Hoceima e outras cidades da região foram palco de protestos e revoltas cotidianas que frequentemente terminaram em confrontos entre a polícia e manifestantes. As mulheres das comunidades estiveram então fortemente implicadas nos protestos. Diversas manifestações femininas foram organizadas por mães e familiares de pessoas presas exigindo a libertação destes. Em Al-Hoceima, no dia 20 de julho, uma grande manifestação para exigir a libertação dos presos, que havia sido proibida pelas autoridades, terminou em confrontos que deixaram dezenas de feridos. De modo geral, a dinâmica de contestação – que passou a se chamar “Hirak” (o movimento, em árabe) – tem forte apoio popular nas comunidades locais, enquanto marchas em apoio ao movimento e contra a violência policial também ocorreram em outras cidades do país como em Marrakech, Casablanca, ou em Rabat, onde um protesto reuniu mais de 15 000 pessoas.

Confrontos em Al Hoceima no dia 08/06/2017 – Créditos: Fadel Senna/AFP.

A população berbere e a região do Rif, no norte do Marrocos, já possuem um forte histórico de contestação política no país e desempenharam um papel importante na luta contra o colonialismo, notadamente na primeira metade do século XX. Na década de 1920, os berberes do Rif que lutavam contra a colonização do país pela França e pela Espanha chegaram a instaurar uma República local autônoma na região. A chamada República do Rif foi criada em 1921 após a explusão do exército espanhol da região através da luta armada empreendida pela população do Rif. Essa luta e a fundação da República berbere foi feita sob a liderança do Mohammed Albdelkrim El Khattabi, que proclamava a independência, a liberdade e a autodeterminação de todos os povos colonizados e dominados.

A República do Rif funcionava como uma articulação de pequenas assembleias locais seguindo a organização política tradicional das populações berberes. Segundo esta, cada vilarejo possui sua própria assembleia local dirigida por uma liderança, geralmente um dos mais velhos da comunidade, chamada de amghar. Todas as assembleias se articulam entre si dentro de uma Confederação, organizada de forma a privilegiar sempre as decisões locais, a horizontalidade e evitar a verticalização do poder.

Ao longo de toda a sua existência a República do Rif enfrentou a ofensiva ininterrupta das tropas dos exércitos coloniais franceses e espanhóis em uma guerra conhecida hoje como Guerra do Rif (1921-1926). Para resistir à ofensiva, as populações do Rif usaram diversas táticas de guerrilha que iriam inspirar as futuras lutas anti-coloniais na África e em outros locais do mundo. A República do Rif será finalmente vencida em 1926, após os exércitos franceses e espanhóis terem realizados diversos bombardeios aéreos visando populações civis, o que incluiu o uso de armas químicas tal como a Iperita, também conhecida como gás mostarda. Este talvez tenha sido um dos primeiros usos históricos de armas químicas contra populações civis por um exército ocidental.

Combatentes indo para linha de frente, Guerra do Rif – 1925. Créditos: Photo12/UIG/Getty images.

Apesar da derrota da insurreição anticolonial do Rif, a população berbere – organizada através do sistema de confederação tribal que articulava inúmeras aldeias e famílias em todo o país – resistiu contra a colonização do Marrocos em outras regiões até meados da década de 1930. A resistência dos berberes marroquinos à conquista colonial durou, ao todo, mais de 20 anos, do início do Protetorado francês em 1912, à derrota dos últimos núcleos de resistência no sul do país em 1934.

No entanto, alguns grupos berberes continuaram a pegar em armas e a se mobilizar politicamente, recusando reconhecer tanto o Protetorado francês quanto a Monarquia marroquina dirigida pelas elites árabes e citadinas. Nas últimas décadas, mesmo após o fim dos conflitos armados, o movimento berbere continua vivo, afirmando sua especificidade linguística e cultural e denunciando a repressão policial e a miséria nas regiões berberes, não só no Marrocos mas em toda a África do Norte.

O movimento passou a se articular internacionalmente e ganhar novo fôlego a partir do início dos anos 2000, depois da chamada Primavera Negra na Argélia. A Primavera Negra foi o nome dado a uma onda de revolta que desabrochou na maior região berbere da Argélia, a Cabília, em 2001 e 2002. O movimento começou após a execução de um jovem de 18 anos pela polícia argelina na delegacia de Beni Douala em abril de 2001. Nas semanas seguintes, multidões tomaram as ruas em toda Cabília para denunciar a violência do Estado Argelino contra o povo berbere. No fim de abril de 2001, na cidade de Amizour, a polícia disparou contra os manifestantes fazendo dezenas de vítimas. Apesar de sofrer uma repressão muito forte, o movimento durou vários meses e ressurgiu novamente no ano seguinte.

A forte repressão sofrida pelos movimentos da Primavera Negra despertou uma onda de solidariedade em diversos países vizinhos e nas regiões de população berbere. A revolta da Primavera Negra e a repressão que esta sofreu também se tornou um tema de várias canções de músicos berberes engajados tais como Pouvoir Assassin (“Poder Assassino”) do cantor cabílio Oulahlou, que se transformou em um hino de denúncia da violência e arbitrariedade do poder de Estado contra as populações indígenas norte-africanas:

Esta dinâmica de solidariedade à Cabília fortaleceu a articulação internacional do movimento berbere que passou inclusive a estabelecer contato e trocas com outros movimentos de populações indígenas ou de minorias culturais ao redor do mundo: tais como os curdos do oriente médio, os catalães da Espanha e os movimentos indígenas latino-americanos. Na última década, a luta dos berberes na África do Norte se manifestou de diversas maneiras: seja na forte implicação do movimento berbere local na revolução contra Kadhafi na Libia (2011), seja na insurreição Tuaregue no norte do Mali (2012), ou ainda nas inúmeras mobilizações nas regiões berberes do sul do Marrocos, por vezes fortemente reprimidas como em Tinghir (2014) ou em Agadir (2015), ou mais recentemente no Rif.

No último 20 de agosto, ao efetuar seu tradicional discurso anual, o rei do Marrocos, Mohammed VI, deliberadamente e contra as expectativas de muitos, escolheu não fazer menção aos acontecimentos dos últimos meses no Rif. Ao adotar tal postura, o poder marroquino tenciona reafirmar sua autoridade inviolável e sua intransigência quanto às reinvindicaçoes populares que emanam do Rif. Atualmente, segundo o Human Rights Watch (HRW), 216 pessoas relacionadas ao movimento Hirak estão presas, das quais 168 já foram julgadas e condenadas enquanto 47 esperam por seu julgamento na penitenciária de Casablanca.

Foto de capa: Protesto em Rabat em apoio ao Movimento Hirak – Y. Boudlal/Reuters