Após os recentes bombardeios realizados pelos Estados Unidos sob a Síria, torna-se cada vez mais claro que a situação política local vem configurando um amplo conflito internacional, envolvendo interesses diversos. Por este fato, ter uma leitura clara dos acontecimentos locais e da realidade cotidiana da população síria nos últimos anos se tornou uma tarefa muito difícil. Enquanto a imprensa internacional retrata apenas esta como vitima passiva dos massacres, condenando a sua experiência revolucionária ao esquecimento, decidimos publicar alguns artigos que trazem a tona outra narrativa, tentando entender a perspectiva da população local através diversos olhares e experiências. O texto a seguir retrata um fragmento da história das comunas e conselhos locais construídos em diversas localidades do país, desde o início da revolução, através da história da Comuna de Daraya.

Daraya é um território do subúrbio oeste de Damas, localizado a alguns quilômetros do palácio presidencial. O regime retomou esta zona no fim de agosto de 2016 depois de intensos bombardeios. Esta perda foi enorme para a revolução, já que a comuna de Daraya tinha se tornado um símbolo, um modelo de libertação no seio do processo revolucionário em curso desde 2011 na Síria. Durante cinco anos, a entrada do bairro era marcada por um retrato de Bachar el Assad, colocado no chão, que devia ser pisado para poder entrar dentro da zona livre de Daraya. Dizem que todas as tendências da rebelião queria se associar com os guerreiros de Daraya para as batalhas importantes.

Omar Aziz era um ativista sírio, morto nas cadeias do regime em 2013, que desenvolveu a ideia de comuna através da construção de comitês locais nos territórios libertados pelo Exército Sírio Livre. Sobre este assunto, ele declarou, pouco tempo antes de ser preso, em 2012, “nós fizemos melhor do que a Comuna de Paris, que resistiu 70 dias. Já faz um ano e meio, e estamos ainda resistindo”.

Sobre a experiência de Daraya e o pensamento de Omar Aziz, reproduzimos este artigo de Leila Al-Shami, inédito em português. Esta foi co-autora, junto com Robin Yassin-Kassab do livro “Burning Country: syrians in revolution and war” publicado em 2016 (sobre o qual publicamos recentemente uma entrevista). Ela é também a co-fundadora de “Tahrir-ICN”, uma rede que trabalha para conectar entre elas as lutas anti-autoritárias no Oriente Médio, na Africa do Norte e na Europa. Este artigo foi traduzido a partir de sua versão em francês publicada na revista Lundi Matin.

Comunas autônomas na Síria em guerra: a história da comuna de Daraya

Leila Al-Shami

Uma revolução é um evento excepcional que transforma tanto a história das sociedades que a própria humanidade. É uma ruptura no tempo e no espaço no qual os humanos vivem entre duas sequências: a sequência do poder e a sequência da revolução. Uma revolução é vitoriosa a partir do momento em que ela consegue estabelecer a independência de seu próprio tempo para poder entrar em uma nova era”. Omar Aziz

Omar Aziz tinha aproximadamente sessenta anos quando ele voltou para Síria, em 2011. Antes disso, ele trabalhava como funcionário de uma empresa de tecnologias da informação na Arábia Saudita mas ele decidiu se juntar ao levante popular que estava se despertando, na Síria, contra quarenta anos de ditadura da família Assad. Com outros ativistas, Aziz começou distribuindo ajuda humanitária para as famílias que tinham sido desalojadas na periferia de Damas e que sofriam ataques do regime.

Apesar das balas e dos tanques do regime, as manifestações que continuavam acontecendo inspiraram muito o seu trabalho, mas ele estava convencido que as manifestações por si só eram insuficientes para quebrar a dominação do regime e que a atividade revolucionária devia tocar em todos os aspectos da vida das pessoas [1].

Antes de sua prisão, no dia 20 de novembro 2012, e sua morte na cadeia em fevereiro de 2013, ele sustentou a hipótese da formação de auto-governos locais, e defendia que a solidariedade, a cooperação e a ajuda mútua eram os meios pelos quais as pessoas poderiam se emancipar da tirania do Estado. Durante o oitavo mês da revolução, enquanto as manifestações ainda eram globalmente pacíficas e que as comunidades viviam ainda na sombra da autoridade do Estado, ele escreveu “o movimento revolucionário ainda esta separado das atividades humanas cotidianas”. E continuou: “existe uma divisão do trabalho entre as atividades no dia dia e as atividades revolucionárias” assinalando o risco de uma “ausência de correlação entre a esfera da vida cotidiana e a esfera da revolução em si” [2].

Aziz defendia a criação de conselhos locais para reduzir este vácuo. Na sua visão, os conselhos, compostos de voluntários experimentados em diversas áreas, deviam ter certas responsabilidades: encontrar casas seguras para os desalojados, se organizar em solidariedade com os que estão presos nas cadeias do regime e ajudar sua famílias. Aziz pensava que o papel desses conselhos também devia ser de promover a solidariedade e a cooperação criando um fórum no qual as pessoas poderiam encontrar soluções coletivas para os seus problemas e criar vínculos entre os conselhos das diferentes regiões. Ele sustentava que os conselhos deviam também coordenar a resistência às expropriações de terras nas cidades e nos subúrbios e ao despejo de seus ocupantes realizado pelo regime. Estas expropriações visavam principalmente criar zonas residenciais protegidas para os membros do governo e oficiais do exército, assim como shoppings-center e outros investimentos para favorecer as populações mais abastecidas.

Alguns meses depois, Aziz escreveu um outro texto. A situação na Síria estava mudando rapidamente. A resposta brutal dada pelo Estado frente a onda de protestos levou em pouco tempo à militarização da revolução, os insurgentes começaram aos poucos a pegar em armas para se defender. A partir deste momento, partes inteiras do território começaram a ser libertadas do controle do Estado. A cultura da organização comunitária que o levante tinha insuflado, tal como a distribuição de cestas de alimentos, ou a transformação de casas em hospitais de campanha, inspiravam muito Omar Aziz. Segundo ele, tais práticas mostravam: “o espírito de resistência do povo sírio diante da brutalidade do regime, do massacre organizado e da destruição das comunidades” [3]. Ele descrevia neste texto como os ativistas formaram comitês de coordenação desde o início da revolução para organizar a relação com a mídia, documentar as atividades, listar o crimes cometidos pelo regime e como estes conselhos começaram aos poucos a cuidar da ajuda emergencial e dos serviços médicos. Ele estava convencido que estes processos permitiam às pessoas se emancipar do domínio do Estado, e permitiam mudanças mais profundas tanto nas relações sociais que nos valores compartilhados.

Crédito: Abu Malik al-Shami

Segundo Mohammed Sami Al Kayyal, um dos companheiros de Aziz, “Omar Aziz estava a favor da ruptura completa com o Estado em vista de realizar uma libertação coletiva sem esperar uma mudança de regime ou uma substituição de poder. Ele pensava que as comunidades eram as primeiras capazes de construir suas próprias liberdades independentemente das vicissitudes da política institucional” [4]. Aziz apontava que o momento da revolução era àquele em que as pessoas deviam declarar sua autonomia e por em marcha, o mais rápido possível, uma espécie de programa alternativo. Ele encorajou novamente a formação de conselhos locais, insistindo desta vez na importância de funções tais como as atividades de primeiro socorro, os comitês medicais e as atividades educativas. Ele imaginava que uma revolução social poderia se desencadear na Síria construindo pouco a pouco comunidades autônomas, auto-administradas, em todo país, vinculadas entre elas por uma rede de cooperação e ajuda mútua independente do Estado.

Omar Aziz contribuiu em criar quatro conselhos locais nos bairros populares de Damas antes de ser preso. Um deles era situado dentro da cidade, principalmente agrícola, de Daraya. Esta cidade possui uma história de resistência civil não violenta com raízes religiosas que tem suas origens em tempos muito anteriores à revolução  [5]. Os ativistas de Daraya se inseriam na tradição de um ulemá – teólogo na religião muçulmana – liberal, Jawdat Said, que defendia a desobediência civil não violenta, a democracia e a luta pelos direitos das mulheres e das minorias. Em Daraya, jovens homens e mulheres organizaram campanhas contra corrupção e protestos contra invasão israelense do campo de refugiados de Jenin em 2002, ou ainda contra invasão do Iraque pelo exército estadunidense em 2003. Este protesto de 2003 foi corajosamente organizado sem autorização prévia, em um regime altamente policiado, e resultou na prisão de muitos ativistas.

Quando a revolução começou, em 2011, a juventude de Daraya – oriunda da comunidade muçulmana ou cristã – tomou as ruas exigindo o fim do regime e a democracia. Eles carregavam flores em sinal de paz diante dos soldados que o regime mandou para reprimi-los. Muitos foram cercados, presos e torturados. Em agosto de 2012, a cidade vivenciou um terrível massacre: centenas de homens, mulheres e crianças foram mortos pelas tropas do regime. Esta brutalidade só fez aumentar a determinação da resistência.

Apenas três meses depois, o regime foi expulso da cidade pelos moradores que pegarem em armas para se defender. A cidade era então controlada pelos próprios moradores. Foi assim que a comuna de Daraya nasceu. Um conselho local foi criado no dia 17 de outubro de 2012, para administrar a cidade e para ajudar os desalojados e feridos. Seus 120 membros designavam o comando executivo por eleição a cada seis meses, e os representantes e porta-vozes eram escolhidos por eleições públicas. Estas foram umas das primeiras eleições livres na Síria há quatro décadas. O conselho cuidava dos serviços vitais tais como o abastecimento em água e energia para os 8000 moradores que sobravam dos 80 000 que ali moravam antes do início da revolução e da guerra. O conselho criou um serviço de assistência que organizou um sopão e tentou construir uma auto-suficiência agrícola por meio do cultivo de terras e da distribuição de frutos da colheita aos moradores.

Nesta foto do grafiteiro sírio Abu Malik al-Shami, os “X” representam os aviões do exército sírio e russo e os “O” representam os pneus que as crianças queimam para criar cortinas de fumaças contra os bombardeios. Crédito: Abu Malik al-Shami

O conselho administrava também três escolas de ensino fundamental (todas as outras infra estruturas educativas estavam inutilizáveis em razão dos bombardeios repetidos). Um serviço médico funcionava no único hospital de campanha que tentava cuidar dos doentes e feridos. A autonomia de Daraya era defendida por uma brigada local do exército sírio livre que era submetida à autoridade civil do conselho.

Daraya era a perfeita antítese do Estado de Assad. Os moradores tinham construído com seus próprios recursos um espaço de liberdade e democracia. Ao lado dos ativistas do conselho, um grupo de mulheres tinha fundado o grupo “mulheres livres de Daraya” para organizar manifestações e a ajuda humanitária. Elas publicavam e distribuíam uma revista independente chamada Enab Baladi (“uvas do meu país”) para contrabalançar o monopólio das mídias do regime e promover uma resistência pacífica ao sectarismo e a violência do mesmo. Ativistas criaram uma biblioteca subterrânea, um abrigo seguro onde as pessoas podiam ir ler, aprender e trocar ideias. Por fim, o grafiteiro Abu Malik Al-Shami pintava a esperança sobre as paredes em ruínas de Daraya [6]. Mas, em novembro de 2012, o regime começou a adotar a estratégia de cercar e sitiar a cidade, impedindo qualquer saída e entrada de abastecimento e material medical, para isolar os seus moradores. Aqueles que tentavam fugir ou ir buscar comida nos campos arredores eram executados por atiradores de elite. Segundo os moradores, gás tóxico, napalm e mais de 9000 barris de explosivos foram jogados sobre Daraya.

O Conselho Local fez chamadas repetidas às organizações humanitárias e a comunidade internacional para que eles cumprem sua promessa de romper o cerco e de barrar a ofensiva do regime: Nós estamos sendo punidos por ter tido a ousadia de nos levantar pacificamente para nossa liberdade e nossa dignidade” dizia um comunicado. “Não existe organizações fundamentalistas tais como Estado Islâmico ou o Jabhat Al Nosra aqui [7]. Aqueles que defendem, com as armas na mão, nossos bairros são todos pessoas da localidade, que protegem nossas ruas contra um governo que nos torturou, nos bombardeou, nos sufocou de gás, nós e nossas famílias” [8]. Mulheres e crianças organizaram também manifestações que eles filmaram e publicaram na internet. Eles também multiplicaram os chamados para o mundo, que aparentemente não os ouvia, para que o cerco seja rompido e que as violências cometidas pelo regime parassem. A partir do verão 2016, a situação piorou nitidamente. Um embargo sob armas imposto por um acordo americano-jordaniano neutralizou a Frente do Sul, uma coalizão ampla de grupos leigos e democráticos membro do Exército Sírio Livre, que aliviou os esforços das forças do regime de Bachar El Assad nesta zona e permitiu intensificar os ataques sob Daraya.

Fonte: Lundi Matin

Os americanos tinham também feito pressão sob a Frente do Sul para que esta concentrasse seus esforços militares contra grupos islamistas radicais (mesmo que estes tenham uma presença limitada no sul do país) em vez de lutar contra as tropas do regime. O último hospital de Daraya foi, em pouco tempo, destruído e as terras agrícolas, única fonte de alimentos, foram tomadas e as colheitas queimadas. Com um mínimo de abastecimento em armas, sem nenhum apoio externo, enfraquecido pela fome, a resistência em Daraya tinha aguentado firmemente contra o Estado Sírio e seus aliados imperialistas durante quatro anos. Mas, no dia 25 de agosto 2016, a cidade foi retomada pelo regime. Todos os moradores, civis e combatentes, foram removidos, talvez sem possibilidade de retorno. Alguns dos civis deslocados em direção à cidade de Harjalleh, controlada pelo governo sírio, foram presos e continuam nas prisões do regime até o atual momento. As tropas de Assad comemoraram a sua vitória em um não-lugar apocalíptico, no meio de edifícios em ruína, numa cidade esvaziada de seus moradores.

Omar Aziz não viveu o suficiente para ver as formidáveis realização da comuna de Daraya. Ele também não pôde ver as outras experiências locais de auto-organização que tinham, com um sucesso variável, florescidas em todo país. Estes “conselhos locais” não são de natureza ideológica mas são experiências pragmáticas. O primeiro objetivo destes é manter os serviços mínimos no seio das comunidades em zonas onde o Estado se evaporou. A maioria do tempo eles continuam independentes de qualquer direção política ou religiosa e se concentram em problemáticas de primeira necessidade, tal como a garantia de serviços vitais e o abastecimento em alimentos. Estas tentativas trabalham e evoluem dentro da matriz de suas próprias culturas e se alimentam com sua experiência adquirida ao longo do caminho, mas elas constituem verdadeiras alternativas ao autoritarismo do Estado. Neste sentido, elas possuem uma dimensão libertária inegável.

Em março de 2016, estimava-se que havia 395 conselhos locais ativos espalhados em diversas cidades, vilarejos e bairros da Síria, cuja metade era concentrada na região de Alepo e Idlib [9]. Esta estimativa foi feita alguns meses depois do início da intervenção militar russa para apoiar o regime contestado. Esta intervenção militar externa provocou a perda de inúmeros territórios libertados colocando as comunidades insurgentes em situação de grande perigo. Enquanto esse texto está sendo escrito, em setembro de 2016, outros bairros revolucionários em volta da capital vão provavelmente ser reconquistados pelo regime com sua estratégia do “ajoelhe-se ou morra de fome”. Isto vale também para Al-Waer, o último bastião revolucionário em Homs e para os 300 000 moradores da zona libertada de Alepo Leste que são novamente cercados.

Três meses depois a escrita deste texto, em dezembro de 2016, após intensos bombardeios pela aviação russa e síria, a zona de Alepo Leste foi evacuada e retomada pelas forças do regime e seus aliados sob o olhar da comunidade internacional.

Crédito: Abu Malik al-Shami

[1] Omar Aziz, “Une contribution à la discussion sur les Conseils Locaux” (em francês) – https://www.editionsantisociales.com/AbouKamel.php

[2] Ibid.

[3] Omar Aziz, “The formation of local councils in Syria, 2011” (em árabe) https://www.facebook.com/note.php?note_id=143690742461532

[4] Ver Budour Hassan, “Radical Lives : Omar Aziz”(em inglês) (2015) http://wire.novaramedia.com/2015/02/radical-lives-omar-aziz/

[5] Mohja Kahf, “Water bottles & roses : Choosing non-violence in Daraya” (em inglês) (2011) http://www.mashallahnews.com/water-bottles-roses/

[6Abu Malik al-Shami é um jovem artista sírio que participou como ativista dentro da revolução Síria. Depois de ter participado dos primeiros protestos em 2011 ele ingressou no Exercito Sírio Livre em 2013. Ele fez ínumeras pinturas nas paredes em ruínas do súburbio de Damas, e mais especificamente em Daraya. Estas tiveram repercussão internacional e ele foi chamado por alguns de “Banksy sírio” em referência ao famoso grafiteiro inglês.

[7] O Jabhat Fateh al-Sham, também conhecido como Frente Al-Nusra, ou às vezes referida como Jabhat al-Nusra  (que significa, em árabe: “A Frente da Vitória para o Povo da Grande Síria”), é uma milícia islâmica de orientação sunita e jihadista, que opera na Síria. Ela atuou entre 2013 e 2016 como um ramo da organização Al-Qaeda, e foi um tempo chamado de Al-Qaeda na Síria. Mais recenemente, em 2017, o grupo rompeu com Al-Qaeda e se juntou com outros grupos de combatentes jihadistas para formar o Hayat Tahrir al-Cham (“Organização de Libertação do Levante”).

[8] Carta escrita por um membro do conselho local de Daraya in: “The Syria Campaign” https://act.thesyriacampaign.org/sign/save-daraya?source=tw&referring_akid=.166567.9L5obO

 [9] Agnes Favier, “Local Governance Dynamics in Opposition-Controlled Areas in Syria” (2016) https://isqatannizam.wordpress.com/2016/07/09/local-governance-dynamics-in-opposition-controlled-areas-in-syria/

Foto de capa / Crédito: Abu Malik al-Shami.

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