Há exatamente 60 dias, Santiago MaLdonado desapareceu na Patagônia argentina.

por Leo S. Ross.

Primeiro de agosto de 2017, muito cedo de manhã. Perto de Cushamen, pequena localidade da província de Chubut, na Patagônia, Argentina. Homens e mulheres terminam sua noite no acampamento de uma comunidade em resistência. São Mapuches, também chamado outrora de Araucanos.

Há séculos, este povo indígena resiste. Contra a extensão do Império dos Incas para o sul do continente, contra os Espanhóis. Hoje em dia, eles lutam por seus direitos e por suas terras, no Chile e na Argentina. Ao desprezo do Estado se adicionam os interesses privados – grandes empresas de exploração florestal, mineradoras, fazendeiros ou multinacionais de agronegócio. Uma delas, a Benetton, maior proprietária de terras privadas na Patagônia, possui na Argentina 900.000 hectares de terras espoliadas dos povos indígenas. Estas propriedades são escrupulosamente defendidas pelo Estado argentino – united colours, como eles dizem. Os Mapuches realizam ações coletivas para se defender, tal como o bloqueio de estrada realizado neste fim de mês de julho para exigir a libertação de um deles, Facundo Jones Huala. As suas ações nunca visam a morte de ninguém, apesar de eles terem sido historicamente temíveis guerreiros.

Crédito: Marcelo Martinez

Primeiro de agosto, antes do nascer do sol. Um grupo da Guarda Nacional Argentina invade o acampamento. Eles atiram balas de borracha, disparam com espingardas e queimam algumas instalações. Muitos Mapuches conseguem escapar. Eles ouvem os guardas gritarem: “Peguem um deles, atirem, atirem!” ou ainda “Matem um deles, índios de merda, vamos caçar eles”[1]. Diversos testemunhas viram os guardas prenderem um homem, agredi-lo e levá-lo em um veículo. Nesta manhã, neste local, desapareceu Santiago Maldonado, 28 anos, libertário, apoiador ativo dos Mapuches[2].

Desde então, ele nunca mais foi visto. Apesar de provas e depoimentos avassaladores sobre a culpabilidade da Guarda Nacional, o Estado argentino, pela voz da Ministra da Segurança da Nação, Patrícia Bullrich, quase não fez nenhuma declaração sobre os fatos e disse esperar o trabalho da justiça. No entanto, esta não suspendeu os Guardas implicados enquanto que o juiz encarregado de investigar o desaparecimento é o mesmo que autorizou a ação da Guarda no dia primeiro de agosto. Mais de um mês depois dos fatos, parece nítido que o governo fez de tudo para atrasar ou dificultar as possibilidades de uma investigação independente. Ademais, às vésperas do desaparecimento, o chefe do gabinete da ministra da Segurança, Pablo Nocetti (um advogado que se tornou famoso por defender militares argentinos acusados de crimes contra humanidade), estava no local, dentro da fazenda da Benetton, com os Guardas que atacaram o acampamento dos Mapuches.

Crédito: Colectivo ES Fotografía.

A maioria da mídia do país, controlada pela oligarquia que apoiou a eleição do presidente Mauricio Macri (especialmente àquela ligada ao grupo Clarin) parecem minimizar o caso, inventar teorias espalhafatosas ou mentir abertamente. Desde a eleição do Macri, a extrema direita argentina está mais presente na cena pública e ganha espaços de expressão. Muitos de seus membros aplaudem o fato do Estado argentino ter reencontrado seu vigor “anti-subversivo”, tal como nos tempos da Ditadura. O governo Macri mergulhou violentamente a Argentina em pleno neoliberalismo, como sonhado por muitos chefes de Estado atuais. Desde sua chegada ao poder em 2015, mais de 200.000 pessoas foram demitidas de seus empregos. Muitos dos argentinos estão hoje em dia ocupados a uma única atividade: sobreviver às despesas do cotidiano. A burguesia argentina – por vezes chamada de “oligarquia”- está exultante, pois a política do governo lhes é dedicada. Para estes, pouco importa a situação dos “selvagens Mapuches” que já deveria ter sido resolvida pela “Campanha do Deserto” [3. Mas já que é necessário silenciar os que ainda estão vivos, eles podem fechar os olhos diante das ações das brutas fardadas. Mas também há muitos argentinos que estão revoltados diante de atos que relembram a violência da Ditadura militar, durante a qual o sequestro ou o “desaparecimento” de manifestantes e militantes era tão banal [4]. Todas estas mulheres e todos estes homens desceram recentemente às ruas, nas últimas semanas, perguntando junto ao governo: “Onde está o Santiago Maldonado? Queremos ele vivo! Agora!”.

Protesto em reação ao desaparecimento de Santiago em Buenos Aires. Fonte: Lundi AM.

Foto de capa: ElCiudadano.com

[1https://www.pagina12.com.ar/61147-maten-a-uno-indios-de-mierda-los-vamos-a-cazar

[3] A “campanha do deserto” foi uma campanha militar comandada pelo Estado Argentino entre 1878 e 1885 para conquistar os territórios do sul do país – inclusive em Patagonia – que pertencem a diferentes povos indígenas (Mapuches, Ranquel e Tehuelches).

 

[4A política de sequestro e desaparecimento de oponentes políticos e militantes foi umas das principais estratégia de repressão praticada pela Ditadura Argentina do General Videla (1976-1983). Segundo movimentos tais como as Mães de maio cerca de 30 000 pessoas desapareceram na época.

 

Traduzido a partir de um texto publicado inicialmente em francês por Leo Ross em www.abordages.net