André Mascarenhas Pereira

“Aquilo que saberemos que, em breve já não,
teremos diante de nós torna-se imagem”

Walter Benjamin (BENJAMIN, 2000,p.85)

Ao consultar a Planta Geral da Cidade de Minas, elaborada pela Comissão Construtora e seu engenheiro Chefe Aarão Reis, é possível notar que na confluência entre as avenidas Afonso Pena e 17 de Dezembro está demarcado uma área aberta com o nome de Praça do Cruzeiro. Não se sabe ao certo desde quando foi colocada neste local uma tradicional e imponente cruz de madeira, justamente por ser um ponto elevado e de grande visibilidade, situado estrategicamente no limite da cidade que também determinaria a futura edificação da Catedral de Belo Horizonte. Portanto este espaço, que delimita o início e o fim da área urbana dentro da planta original, termina na avenida mais importante da Capital e começa na serra que abraça a cidade, a imponente Serra do Curral. Neste ponto estratégico, a Igreja e o Poder Oficial destinavam seus projetos para a edificação de um templo. Posteriormente, cerca de 20 anos passados, alguns prefeitos já planejavam construir próximo da Catedral um mirante para vislumbrar o restante da cidade. Entretanto, neste mesmo sitio de contemplação, seja religiosa, seja paisagística, se formou um local de sobrevivência de centenas de homens e mulheres alijados do projeto progressista e civilizatório dos engenheiros, arquitetos e eclesiásticos de Belo Horizonte. Durante a década de 1920, esta população excluida se apropriou do terreno ainda vazio e formou a vila Pindura Saia, um aglomerado formado por operários, lavadeiras e demais indivíduos de classes populares que desprovidos de poder econômico não possuíam direito e acesso a moradia na parte interna da Avenida do Contorno.

FIGURA 1: VISTA DO PICO DO CRUZEIRO, 1895. ARQUIVO PUBLICO MINEIRO

A arquitetura da liberdade

Planejada através das novas tendências que influenciavam o pensamento cultural e científico da época, Belo Horizonte foi construída sob a implantação da técnica e da racionalidade: moderna, higiênica, eficiente. O engenheiro chefe responsável pelo projeto de construção da nova Capital, Aarão Reis, influenciado pelas tendências liberais das classes dirigentes mineiras e do positivismo difundido em seu meio acadêmico procurou transplantar da teoria a prática todos estes preceitos vigentes nesta época.

Sob tais premissas, a nova Capital, foi uma idealização imposta pela oligarquia mineira no qual seu planejamento fora configurado de forma racionalizada e hierárquica  para a utilização e apropriação hegemônica das elites. Contraposição ao urbanismo desordenado das cidades coloniais, a cidade era planificada sob a lógica da objetividade e da linearidade. O novo traçado urbano com ruas retilíneas, avenidas extensas e amplas, praças delineadas representavam uma ruptura com o traçado oblíquo e improvisado das cidades coloniais. Ruas retas, quarteirões simétricos, planejamento do fluxo de transportes, toda esta ordenação, que se concretiza em uma espécie de burocratização espacial.

FIGURA 2: PLANTA GERAL DA CIDADE DE MINAS, confeccionada pela Comissão Construtora e seu Engenheiro Chefe, Aarão Reis 1895 – Item Documental: APM – 104. Fonte : Arquivo Público Mineiro

Apesar de toda a racionalidade envolvida na construção da Cidade de Minas, posteriormente, Belo Horizonte, os seus arquitetos e engenheiros, recorriam à técnica, para incentivar o imaginário e as emoções. Foi implantada no centro da cidade, que seguia de sentido sul a norte (ver figura 2) [1] uma avenida, a Afonso Pena. A Avenida foi projetada como um eixo bem amplo, que cortava a cidade de ponta a ponta, e assim obrigava seus cidadãos a passar por uma via monumental. “Observa-se também que a avenida segue cortando as curvas de nível do terreno, ligando a parte baixa,  na  calha  do  Ribeirão  Arrudas,  onde  se  construiu  o  primeiro  Mercado  Municipal, à parte alta, na época denominada Morro do Cruzeiro, atual Praça Milton Campos” (BORSAGLI, MEDEIROS,2013, p.2). Em seu relatório Aarão Reis, justifica este planejamento.

“Apenas a uma das avenidas – que corta a zona urbana de norte a sul, e que é destinada à ligação dos bairros opostos – dei a largura de 50 m, para  constitui-la  em  centro  obrigado  da  cidade  e,  assim,  forçar  a população,  quanto  possivel,  a  ir  se  desenvolvendo  do  centro  para  a periferia,  como  convem  à  economia  municipal,  à  manutenção  da higiene sanitaria e ao prosseguimento regular dos trabalhos tecnicos”. (BARRETO, 1996)

Como se pode observar na planta da cidade, Aarão Reis já previa que em algum momento (talvez não tão precocemente quanto imaginava) a cidade iria se expandir para suas áreas periféricas e a Avenida Afonso Pena seria o eixo principal que tinha a função de direcionar este tipo de ampliação. A Praça do Cruzeiro, já projetada na Planta original da cidade, se integrava a este tipo de projeção. Dentro de um planejamento embasado nas mais vigentes concepções racionalistas era muito simbólico que um lugar sagrado ganhasse uma área de tamanha evidencia.

“[Aarão]  Reis  preocupou-se,  sobretudo,  com  o  projeto  da  futura  sede  da capital  de  um  dos  estados  mais  importantes  do  País,  cujo  espaço  deveria refletir  e  representar  a  organização  da  sociedade  e  do  poder  Executivo.  A localização  do  Palácio  do  Governo  tem  um  lugar  de  destaque,  em  um  dos pontos  mais  centrais  e  mais  altos  da  cidade  [atual  Praça  da  Liberdade].  O Congresso  e  a  Catedral  situam-se  ambos  na  Avenida  Afonso  Pena,  eixo principal da cidade. O primeiro, no centro, na Praça da República [atual Praça Afonso  Arinos],  abaixo  do  Palácio,  representando  sua  submissão  ao Executivo,  e  a  Catedral,  no  limite  da  zona  urbana,  no  alto,  afastada  do Congresso e do Palácio, simbolizando a separação entre a Igreja e o Estado.” (GUIMARÃES, 1991, p.54).

Portanto é neste local demarcado pelo fim da cidade ou pelo seu início, que seus eixos se projetam para a Serra do Curral que a demarca. Portanto esta demarcação se torna “um espaço limite, ao mesmo tempo, ponto de chegada e partida, barreira e passagem” (LOPES, 1993).  Além de limite, este ponto projetava, e se concebia na perspectiva de que a cidade, um dia ampliaria-se em direção ao seu monumento natural: a Serra do Curral e o que empreenderia o marco desta extensão seria um edifício sacro, que a primeiro momento, não existia, mas se concebia na mente das pessoas, nas palavras de Walter Benjamin[2], como uma imagem.

A Praça do Cruzeiro

No alto do morro localizado onde se faz o cruzamento entre o eixo sul das avenidas Afonso Pena e 17 de Dezembro, atual Contorno, havia uma grande cruz de madeira, provavelmente erguida antes da construção da nova capital, pelos habitantes do Curral Del Rey no século XIX e por este motivo, ficou conhecido como Morro do Cruzeiro.  É provável, entretanto sem documentação que confirme a hipótese, que a própria Afonso Pena foi demarcada pelo caminho que se fazia até o morro para procissões.  Até a década de 1920 a avenida, apesar de demarcada na planta de 1895, não foi pavimentada até seu cruzamento com a 17 de Dezembro.

FIGURA 3: Catedral de Belo Horizonte ( maquete ) na feira de amostras , década 1930 – 1940, PE-065. Arquivo Publico Mineiro

O uso religioso deste local e a sua altitude elevada levaram o poder público e a Arquidiocese a projetar a nova Catedral, segundo a Planta elaborada pela Comissão Construtora da Cidade. Se elevada, a Catedral por muito tempo estaria no ponto mais alto da cidade em um nível de altitude superior ao da Praça da Liberdade que foi construída em um aterramento para aumentar sua posição. Além disso, a possibilidade de sua construção era muito direcionada aos alvos de urbanização e investimentos imobiliários para esta parte da cidade.  Enquanto não era edificada, uma grande cruz de madeira demarcava o uso de seu espaço. Simultaneamente, a visão privilegiada deste morro fazia com que fosse apropriado como mirante, pratica já era realizada por parte de alguns habitantes da cidade, como é possível identificar no testemunho de Pedro Nava[3]:

“Íamos ao outro extremo da cidade – subindo ao Cruzeiro. Galgávamos o barranco onde terminava a Avenida Afonso Pena e ganhávamos o campo de futebol onde está hoje a Praça Milton Campos (ele, nesse tempo, não praça, não estatua, às vezes conosco). Do pé da torre de alta voltagem e da Cruz de madeira que vinha o apelido de logradouro –  olhávamos  a  cidade.  Víamos  a  Avenida  Afonso  Pena  como  a Campos  Elíseos  de  cima  dum  Arco  do  Triunfo.  Estéril,  de  moledo solferino  e  terra  escarlate,  sem  calçamento  e  com  as  beiradas escavadas  pela  erosão  das  grandes  chuvas  que  faziam  sulcos caprichosos como negativos de cordas torcidas”. (NAVA,1985)

Este projeto começou a ganhar maior ímpeto a partir da década de 1920, devido a potencialidade paisagística oferecida pelo local. No relatório Municipal de 1923, o Prefeito Flavio Fernandes dos Santos aponta quais seriam os projetos de expansão para a área:

“Há muito que fazer nesta parte, mesmo não contando com a abertura de novas ruas ou trechos de ruas, nas zonas urbana e suburbana. Ninguém poderá negar que, ultimadas a Avenida Afonso Pena e a Praça do Cruzeiro, onde já foi executado grande movimento de terra, si não me engano, pela Comissão Construtora da Capital, muito terá a lucrar o bom aspecto da cidade. Para quem viesse visitar Belo Horizonte, desde que o accesso fosse um dos pontos forçados seria aquella praça, a que se poderia dar um aspecto, por sua vez, agradável, dotando-a de um jardim sem arborização espessa para não perturbar a vista” . (SANTOS, 1923).

A indefinição sobre o uso do local discorre ao longo do tempo. Três anos após o relatório de Flávio dos Santos, na gestão sucessiva, o prefeito Cristiano Machado  iniciou os trabalhos de pavimentação de avenida e terraplanagem da chamada praça do Cruzeiro  com a intenção de delinear o espaço para a Catedral referindo a este como edifício Monumental.  “O  da  terraplenagem  da  praça  Cruzeiro  nos  dará  acesso  ao  ponto  mais encantador de Belo Horizonte, sobre o qual se terá de levantar, sem dúvida,  em  futuro  próximo,  algum  edifício  monumental  e  magestoso  [sic]”  (BELO HORIZONTE, 1926,p.34).

FIGURA 4: “Escavação Da Av. Affonso Penna, próxima a Praça do Cruzeiro. OM-2-003(25), Fundo OLEGÁRIO MACIEL data:1926 – 1930 – DATA PROVÁVEL Arquivo Publico Mineiro

A Vila do Pindura Saia

A produção do espaço no que tange ao desenvolvimento urbano de Belo Horizonte resulta em uma cidade hierarquizada da qual a área circundada pela Contorno, era regulada para uso predominante das classes abastadas, equipada de mecanismos de controle e inspeção do proletariado. A zona urbana de Belo Horizonte, projetada e delineada foi apropriada e povoada praticamente com exclusividade pela classe dominante.

A planta da cidade é altamente classista, nela existe a preocupação de destinar a cada fração da população o seu lugar: grandes avenidas, poucas praças, poucos lugares de encontro, uma avenida de contorno que isola a cidade , uma zona tampão que seria a zona suburbana e depois a periferia. Trata-se de uma planta realmente segregacionista e altamente classista nesse sentido (SILVA, 1994, p.6).

Os alto custo dos lotes da zona urbana de Belo Horizonte forçava grande parte da população a se dirigir para a zona suburbana, destituídas de infra-estrutura e planejamento. Em 1912, 56% dos moradores da zona suburbana possuíam água encanada e 19% possuíam rede de esgoto. O Poder Público demonstrou descaso e incapacidade de prover estruturas básicas para a população periférica, fato que reflete uma agravante questão social desde sua fundação: populações segregadas excluídas do direito a cidadania.

Já os funcionários públicos de alto escalão tinham suas moradias garantidas na área central. A definição dos espaços de Belo Horizonte, entretanto foi realizada de forma hierarquizada. A elite da cidade, assim como em outras metrópoles, desde o século XIX tinha uma política de higienização de seus espaços públicos principais que alijava as classes marginalizadas  a fim de se criar uma paisagem esteticamente mais limpa.

“Será sempre preferível uma população menos numerosa na área urbana, porém saudável, e cercada de todas as garantias de higiene, habitando prédios e áreas que tenham o conjunto harmonioso e perfeito previsto pela comissão construtora a vermos mesmo no coração da cidade verdadeiros bairros chineses, habitat predileto de todas as moléstias infecto-contagiosas”. (FARIA, GROSSI, 1982, p.175).

O Poder Público desde a construção da Capital determinava a dinâmica de ocupação do solo estipulando altos preços do mercado imobiliário para a região central . Desta forma fez que este espaço se mantivesse restrito as elites. Por outro lado, tentou ineficazmente controlar os locais de permanência das classes populares a fim de estipular o território sob qual se mantivessem estabilizados e imobilizados. O seguinte trecho do Relatório elaborado pela gestão do prefeito Bernardo Monteiro apresenta como essas classes estariam subordinadas as imposições do Poder Público e impedidas da livre escolha sobre os locais de moradia:

“Cerca de 600 cafuas no Leitão e 300 no lugar denominado favella e em outros pontos foram removidos com uma população de 2000 habitantes para a 8ª seção urbana, onde se fez concessões a título provisório para o estabelecimento destes operários que constituem elemento indispensável ao progresso da cidade… As suas modestas habitações, situadas em lotes de 6000 m² obedecem aos alinhamentos determinados na planta. Todos essses operários estão matriculados e não põem transferir suas casas sem prévia audiência na Prefeitura, com esta medida, sua permanência na capital se torna segura”. (MONTEIRO, 1902, p.6)

Além dos limites da Avenida do Contorno no sentido sul, rumo a Serra do Curral, se localizava um dos vário reservatório de água que abasteciam a capital. O edifício desta estação de agua ainda se encontra no topo de um morro rodeado por pinhais , acima do atual Mercado Distrital do Cruzeiro.  Em torno deste mesmo morro do qual se localizava o reservatório, foi se desenvolvendo ao longo da década de 1920  uma ocupação formada por pequenos casebres cujos moradores eram incapazes de se adequar à politica imobiliária da área central.

Por muito tempo a ausência de empreendimentos imobiliários nesta área se deveu ao fato da quantidade de córregos que cortavam o terreno, além de sua posição muito íngreme e pedregosa.[4] A possibilidade de obter água e de estar situado em uma zona próxima a área central da cidade apontam como as condicionais para a ocupação.  Esta ocupação ao final da década de 1930 ficou conhecida como Pindura Saia, devido o grande número de mulheres que ali habitavam e prestavam serviço de lavadeiras as elites da cidade. [5]

É pertinente, refletir que esta área de propriedade pública e municipal, por décadas não ofereceu nenhum tipo de intervenção que promovesse a melhoria da população. Esse aspecto é observado por meio das entrevistas levantadas na dissertação da pesquisadora Tatiana Soledade Delfanti Melo (2012). Nas entrevistas realizadas percebe-se que moradores e ex-moradores[6], tem um sentimento nostálgico em relação à vida no antigo Pindura Saia. Alem do sentimento de pertencimento devido à conquista de conseguir uma moradia próxima a região central, muitos relembram as vivencias e as sociabilidades, como um campo de futebol próximo ao cruzeiro, provavelmente o mesmo que esta no relato de Pedro Nava. No entanto, a ausência de luz e agua encanada, foi um fator que de certa forma compensou a remoção da antiga vila, para áreas mais periféricas de Belo Horizonte.

Apesar de todas as especulações e projeções que se fizeram sobre o espaço, não se tem muita referencias e testemunhos sobre o Pindura Saia anteriores à década de 1940.  Lembremos que a poucos metros da Vila, se encontra o entroncamento das avenidas mais importantes nas primeiras décadas de inauguração da capital, além dos projetos de construção da Catedral Metropolitana e do uso do espaço por parte de alguns habitantes para a visada, que posteriormente inspirou o planejamento de um mirante. O que levaria portanto a negligenciar uma ocupação tão próxima tas áreas mais nobres da cidade, aos portões de seu patrimônio natural, a Serra do Curral?

A Pindura Saia, surgiu, como alternativa popular de acesso ao direito a cidade, diante as rígidas normas invisíveis da fronteira socioeconômica edificada  pela Avenida do Contorno. Desta forma, propõem-se pensar neste espaço sob a conjuntura histórica, fruto de praticas e estratégias de grupos que procuravam ajustar a  tal realidade. Como já foi apontado previamente, os limites de Belo Horizonte foram planejados até a Avenida 17 de dezembro, atual Avenida do Contorno, e assim permaneceu oficialmente ate meados da década de 1920.  As ocupações reconhecidas pelo poder público além destes limites, eram as colônias agrícolas destinadas ao abastecimento do interior, harmonizando as concepções liberais e positivistas do século XIX.

Neste aspecto, buscar-se-á pensar nos conceitos de fronteira e limite imposto pela avenida do  Contorno, não apenas pelos aspectos físicos, mas socioeconômicos.  Em seu texto sobre os portos das cidades portuárias, principalmente Rio de Janeiro e Londres, Myriam Bahia Lopes, analisa os portos a partir de uma “representação mais suave da fronteira. À rigidez da linha que divide e demarca, se opõe uma fronteira líquida e móvel, o rio” (1993, p.1).

O lado externo da Avenida do Contorno, apesar de não possuir a fluidez e mobilidade do rio ou do mar, não tem a rigidez de outras fronteiras. Entretanto, como a autora observa, a fronteira para o pensamento positivista do século XIX se agrega a noção de higiene e organização. A partir do que já fora citado anteriormente sobre o projeto de Belo Horizonte, sua Comissão planejou seus espaços concebidos nestas ideias, relevando a presente análise deste trabalho, de compreender o além do Contorno e o Pindura Saia enquanto limite e fronteira.

Somente na década de 1940, mais precisamente em 1942 que se iniciam trabalhos de maior acuidade nesta área.  Tatiana Soledade Delfanti Melo[7], em trabalho já citado, observa que na planta cadastral de 1942, a área ocupada pela Favela Pindura Saia se sobressai como uma mancha branca (possivelmente negligenciada) que fica em torno do reservatório de água:

Aparecem  apenas  as  curvas  de  nível,  cuja  proximidade  entre  elas  indica  elevada declividade. Os cortes de terra da Avenida Afonso Pena, ao sul da Praça do Cruzeiro, estão  parcialmente  realizados  e  há  elevado  desnível  existente  entre  os  lotes  (que ainda não existiam e eram ocupados pela favela) e o nível da avenida, podendo ser esta  dificuldade  de  acesso  um  dos  fatores  que  postergou  a  ocupação  “formal”  da região. Nota-se também a baixa densidade da ocupação, caracterizada por chácaras em lotes  maiores  e  edificações  que  indicavam  o  uso  residencial  unifamiliar ( MELO, 2012).

O objetivo deste levantamento topográfico se revela posteriormente no relatório elaborado por Juscelino Kubitschek, durante sua gestão como Prefeito de Belo Horizonte,  aponta para as obras de embelezamento na chamada praça do Cruzeiro e o asfaltamento da avenida Afonso Pena a fim de criar um lugar propicio e embelezador para a Catedral e também visando a ampliação da cidade rumo a esta região.

“A Avenida Afonso Pena asfaltada no início de minha administração, e cujo prolongamento , em execução, demanda a Serra do Curral, sofrerá no alto da Praça do Cruzeiro modificações profundas e embelezadoras , destinadas a acolher a grande catedral que o gênio inspirado de Dom Cabral fará erguer para enlevo  da alma católica de Minas.” (KUBITSCHEK, 1944).

Além do prolongamento da avenida, com o objetivo de intensificar as redes viárias entre a capital, Nova Lima e o Rio de Janeiro também foram previstos a construção de um túnel na Serra do Curral, obra nunca realizada, mas idealizada, como se lê no trecho extraído do Relatório de 1942: “Em demanda da Serra do Curral, fizemos prolongar a Avenida Afonso Pena, numa extensão de 382 metros, afim de que se facilite a ligação desta capital ao município de Nova Lima e dali à capital da Republica, através de um Túnel em estudos e que, realizado, será uma das maiores obras da engenharia brasileira” (RELATÓRIO,1941).  Nota-se que Juscelino Kubitschek durante sua gestão, iniciou empreendimentos voltados para o crescimento urbano e criação de novos espaços, mas sempre condizente com o interesse dos grandes grupos imobiliários.

FIGURA 5: Prolongamento da Avenida Afonso Pena – década de 1940. Periódico: Bello Horizonte nas palavras do prefeito Juscelino Kubitschek. Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte

A fronteira, também funciona como uma porta que determina o que é pertencente ao nosso familiar e aquilo que é externo. A porta desta forma serve como um mecanismo para barrar aquilo que é indesejável, e definir o que é distinto de nosso interior e, portanto exótico.  A Avenida do Contorno, portanto demarcou de forma muito nítida esta fronteira entre duas formas de ocupação do espaço: de um lado a cidade positivista e organizada; de outro lado a cidade improvisada, auto-construída pelos moradores, inversa a essa lógica. Os sonhos e expectativas dos que planejaram e posteriormente administraram Belo Horizonte, não escaparam de uma profunda contradição. A cidade da liberdade, do sonho republicano, da higiene e racionalização, produzia desigualdades logo ao atravessar sua avenida-limite, que por sinal se chamava 17 de Dezembros, data comemorativa da determinação no Congresso Mineiro em 1893 da transferência da Capital de Ouro Preto, marcava o excludente limite desta utopia republicana.

A partir do exotismo que o Pindura Saia suscitava enquanto fronteira, esta vila poderia ser vista sob, pelo menos, dois aspectos: de condenação ou lamento dos hábitos que lá se praticavam, como as festas e demais sociabilidades e a precariedade sob a qual viviam os moradores; por outro lado poderia suscitar certa apreciação destes mesmos hábitos, porém de uma forma mais otimista, da qual suas festas eram vistas como alegres e suas condições eram reconhecidas como atos dignos de sobrevivência diante as dificuldades.  Nesta matéria publicada na revista do Minas Tênis Clube em 1944, é sob esta confluência de pena, compaixão e ao final, certa apreciação, que o autor da nota traduz a imagem. Tal cena se trata de uma pintura, que recebeu o nome de Pindura Saia (FIGURA 6), feita por Delpino Junior em 1943:

“Pindura  Saia…  A  ironia  dolorosa  do  populacho  derivou  assim  o  bairro miserável.  Lavadeiras  e  malandros  povoam  aqueles  barrancos  onde  os  casebres  se  agarram,  cobertos  de  latas,  paredes  de  taipa  esburacada. Pindura Saia é a favela de Belo Horizonte. Não se diga, porém, que a miséria enche  de  tristeza  os  moradores.  Há  por  ali  uma  alegria  realista,  mais  da carne  que  dos  sentimentos.  Del  Pino  Filho,  artista  curioso,  foi  ao  Pindura Saia.  Seu  pincel  apanha  com  instantaneidade  os  flagrantes  da  vida,  é  fiel, colorista, imaginoso. É capaz dos mais altos momentos líricos e, ao mesmo  tempo, das sátiras mais esfusiantes E Del Pino Filho trouxe de sua excursão o óleo magnífico “Baile do Pindura Saia”. É o bairro que se expande em plena noite  no  fervedouro  do  samba.  O  negro  e  a  mulata,  entrelaçados,  giram  e  sapateiam, contorcem-se, bamboleiam, nos impulsos da cadência monótona  e  selvagem.   Os  olhos  da  mulata  espicham-se,  enlanguecidos,  o  negro  suspira,  o  pinho  choroso  acompanha  de  manso  as  frases  de  uma  cantiga luxuriante.  Os  corpos  misturam-se  gigantes  na  sala  abafadiça.  Tresanda  o  suor,  que  entumece  as  narinas  e  acende  a  volúpia  dos  negros  vigorosos.  Suor e cachaça. A um canto, o lampeão mortiço espalha a penumbra, onde  os pares vertiginosos desaparecem.” (BAILE…Folheto Minas Tênis, 1945).

A apreciação do autor da nota que não assina o texto, não esconde de certa forma um preconceito determinista e racista, que marcou historicammente o imaginário social sobre as favelas e os bairros pobres.  O estigma que se criava pelas favelas já se conformava na década de 1940, onde seus moradores eram referenciados como malandros. Apesar de sua empolgação ao descrever o baile, refere-se à dança do casal de forma muito jocosa. O exótico também surge tanto na pintura quanto na matéria da revista: termos fervedouro do samba, selvagem cantiga luxuriante, revelam todo o exotismo reproduzido na cena.  Já na pintura as cores e a centralidade da dança dos corpos assim como o violeiro na margem esquerda da pintura revelam toda esta característica. O estranhamento talvez seja menos desprezível na obra de Delpino Júnior, que apresenta um intuito desta valorização do popular, muito exercido pelas vanguardas modernistas das décadas de 1920 a 1940.

FIGURA 6: Pindura Saia – 1943. Pintura de Delpino Junior. coleção particular

A medida do tempo à necessidade de expansão da cidade para esta região se intensificava de forma exorbitante. O eixo sul muito mais valorizado que o norte se expandia devido a preferência das elites para ocuparem novos terrenos nesta área. Somado a este fator,  identifica-se que  também  na  década  de  1930 surgiram discursos que estabeleciam relação entre a criminalidade e as favelas em Belo Horizonte. Notícias de jornais  estampavam  a  descrição  do  ato  criminoso  e  sua  relação  com  o  espaço  favelado da mesma forma que o texto aponta a Pindura Saia, como lar de malandros.  A semelhança com o Rio de Janeiro, neste aspecto era temida e portanto a favela não era algo que deveria expandir-se na cidade.  Entre a civilização e barbárie – não se pode desconsiderar que estas imagens, seja a matéria, seja a tela, enfatizam o desorganizado, o improvisado, a fim de contratar com o imaginário comum do que é civilizado, organizado, ao qual se propunha Belo Horizonte.

A representação do espaço da favela predominava como território da incivilidade e da pobreza, e seus moradores eram  vistos  como  pessoas  de  moral  inferior,  entregues  aos  impulsos  do instinto,  avessos  ao  trabalho,  malandros,  vadios,  criminosos.  Formavam a classe perigosa (VALADARES , 2005).

FIGURA 7: Pindura Saia, Década de 1950-1970–Arquivo Publico da Cidade de Belo Horizonte

A partir de 1964 devido a especulação particular e pública que visavam empreendimentos na área, a remoção dos moradores do Pindura Saia foi iniciada. A continuação da Avenida Afonso Pena se estendeu além da Praça do Cruzeiro intensificando a valorização da região.

FIGURA 8: Pindura Saia, Década de 1950-1970–Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte

Neste período, já haviam pequenos  prédios  de  apartamentos  no  Anchieta,  com  acesso  pela  avenida  Vitório  Marçola  e  na Serra  através  da  Rua  do  Ouro.  “O  primeiro  grande  edifício  do  “alto da Afonso Pena” foi o prédio Véritas  construída  por  36  cotizados  da  esquerda  católica. O terreno foi comprado legalmente da família JEHA e aos posseiros ilegais foi concedida indenização para que desocupassem o terreno. O  terreno  onde  se  encontra  a  atual  Telemig  também  foi  indenizado  e  seus  moradores removidos.

Procedeu-se então ao desmantelamento da vila que ali existia. A “Política de Erradicação de Favelas” criada em plena ditadura militar revelava que esta prática seria tão autoritária quanto o regime político em vigência.  Na década de 1970, iniciaram a construção de grandes edifícios, como o Prédio da antiga Telemig o prédio do IBGE e o edifício Véritas. A partir de 1971, impulsionado pela especulação, é usual ver a presença do prefeito Oswaldo Pieruccetti, nas obras de saneamento e urbanização nesta região. Durante seu mandato foram  realizadas  as  remoções  de  maior  vulto  na  Pindura Saia,  dirigidas pela recém criada Coordenação de Habitação de Interesse Social – CHISBEL, órgão  vinculado  à  Prefeitura  Municipal

“No  exercício  de  1974,  a  CHISBEL  atendeu  também  a  desfavelamento  de áreas  de  propriedade  pública  ou  privada,  as  quais  seriam  utilizadas  para  ampliação  das  instalações  e atividades  de  empresas públicas estaduais  ou  federais  ou  de  economia  mista,  bem  como  de  empresas  particulares.  Para  isto  foram  utilizados  recursos  fornecidos  pelas  próprias  empresas  interessadas, após constatação das reais necessidades da execução de tais  tarefas” (BELO HORIZONTE, 1974).

Seguiram-se as remoções.  No decorrer dos anos de 1970, quase 50 famílias receberam uma indenização do poder público para se retirarem da área. Muitas foram relocadas em áreas mais distantes da cidade como Venda Nova e Jatobá.  A partir de 1980, a valorização e o investimento público e principalmente privado na região conformaram bairros elitistas, como a nova parte da Serra , Anchieta e posteriormente ultra valorizados como o Mangabeiras.

Passaram-se décadas desde a construção da Cidade de Minas e a Catedral Metropolitana não foi construída. Gradualmente foram sendo construídos edifícios nesta área, entretanto o edifício sacro nas proximidades da antiga cruz de madeira ficou no mundo das expectativas.  A praça do Cruzeiro hoje conhecida como Milton Campos, não faz nenhuma referência aos usos que se praticavam no local. O mirante idílico de Pedro Nava, recuou rumo ao sul e se elevou alguns metros primeiramente a Praça do Papa e logo depois a uma colina do bairro Mangabeiras.

FIGURA 9: Vista da Avenida Afonso Pena e da Praca Milton Campos, 1976. –Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte

[1]  Sugere-se ver na FIGURA 2  e observar como a planta esta invertida, ou seja ela esta em posição SUL – NORTE. Este tipo de orientação sugere-se a importância simbólica da Serra do Curral e toda a paisagem monumentalizada que ela irrompe na cidade.

[2] BENJAMIN, Walter. in:  Magia, Técnica , Arte e Política. São Paulo: Brasiliense, 2000

[3] Este trecho retirado do livro BEIRA MAR de Pedro Nava, enquanto testemunho histórico ainda apresenta outros espaços além do mirante como o campo de futebol.

[4] Para mais ver em : Tatiana Soledade Delfanti Melo.  A Vila Santa Isabel na Avenida Afonso Pena: A experiência positiva da moradia popular em região central de Belo Horizonte, 2012. (Dissertação de Mestrado)

[5] FURTADO, Bernardo . Favelas Inseridas No Meio Urbano ,1995 – p. 26

[6] Ainda existem algumas casas nas mediações, muitas delas agrupadas que pertence a ocupação original, ou de pelo menos de décadas posteriores como as de 1940 e 1950 e ainda se reconhece como Pindura Saia.  Muitas pessoas portanto ainda vivem nestas casas e outras pessoas devido as ações implementadas pela Prefeitura para remover estes moradores, foram obrigados a retirar-se para outros bairros em meados de 1970.

[7] Op.cit. Melo, 2012.

BIBLIOGRAFIA

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